sexta-feira, 2 de abril de 2010

Félix Rodriguez


Félix Rodriguez, artista plástico cubano é também conhecido como “O artista das Sapatilhas”. Não exatamente uma alusão ao seu passado glorioso como bailarino principal do famoso Ballet Nacional de Cuba (BNC), onde ainda hoje atua como mestre. Mas principalmente uma referência ao seu trabalho criativo de pintar sapatilhas de ponta descartadas pelas bailarinas (vide reportagem neste blog).

Foi também através do ballet que Félix começou a pintar e descobriu seu segundo maior talento, já que a dança ficou em primeiro lugar, durante toda sua vida. Ajudando na confecção dos cenários para os espetáculos do BNC ele aprendeu a lidar com cores e formas encontrando no acrílico um forte aliado para enfrentar a umidade excessiva da ilha e a agilidade mental espantosa: capaz de pintar dezenas de quadros em poucos dias precisa que tenham secagem rápida ou não teria como armazená-los.

Artista irrequieto não passa um único dia sem seus pincéis. Um simples pedaço de madeira, tronco de árvore, restos de construção como ladrilhos ou as pedras das ruas, conchas do mar, enfim, tudo pode virar uma obra de arte em suas mãos. É assim que passa seus momentos de folga: pintando. Mesmo com o ritmo frenético das turnês do BNC, quando chegam a passar meses viajando, Félix encontra tempo para seus pincéis.

Na reportagem: “O Artista das Sapatilhas” e nas fotos de alguns de seus quadros, um pouco do homem e do artista.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

O ARTISTA DAS SAPATILHAS

Por Bernadete Faria

bernadete@perfilprocultura.com.br

Bailarino principal e mestre do Ballet Nacional de Cuba, Félix Rodriguez é duplamente conhecido como artista das sapatilhas. Não pelos seus mais de 30 anos de profissão, mas principalmente por cultivar uma arte sui generis: transformar velhas sapatilhas de ponta com o colorido forte de seus pincéis.

No bairro El Cerro, em Havana onde mora, o bailarino de 56 anos de idade, que já pisou os principais palcos do mundo e dançou com a lendária bailarina Alicia Alonso, é mais conhecido como pintor. Sua casa, datada do século XVII, com altíssimo pé direito está tão abarrotada de obras de arte, que parecem transbordar porta a fora colorindo postes e muros.

“Ali mora um artista” - dizem os vizinhos, apontando para uma das poucas fachadas com a pintura novinha. Os postes de madeira, à entrada da casa, exibem disformes figuras com grandes olhos, chamando a atenção dos transeuntes. Crianças a caminho da escola interagem com as obras, sugerindo detalhes aos desenhos, acatados de bom grado pelo artista, que se diverte com o interesse das crianças.

A idéia de deixar a arte invadir a rua tem exatamente esse objetivo explica: “quero levar as pessoas a fazerem o mesmo ou pelo menos pintarem as fachadas de suas casas”.

Quem conhece Havana, com seus prédios centenários deteriorados pelo tempo entende bem o significado de seu gesto. Este é apenas um dos impactos da obra de Félix. Uma profusão de olhos, nem sempre humanos, são uma constante na pintura do artista, enquanto a presença de elementos como rios, vales e florestas, podem ser apenas pano de fundo para um rosto de mulher.

Autodidata, ele explica sua arte: “os olhos são a janela por onde enxergamos a alma das pessoas, os sentimentos se refletem nos olhos”. A julgar pela expressividade dos olhares retratados, temos a exata medida desses sentimentos. “E as cores vibrantes – continua ele - traduzem o estado de ânimo, a alma do artista”.

A técnica Félix aprendeu no dia-a-dia, como bailarino de uma companhia, cujos cenários são produzidos pelos próprios artistas. Utiliza o acrílico pela rapidez na secagem. O clima muito úmido de Havana inviabiliza o uso do óleo – explica.

Mais de uma centena de telas se amontoam pelos três cômodos da casa, que dividem espaço com sapatilhas de ballet transformadas em obra de arte.



DOS PÉS PARA AS MÃOS

Os temas das telas se transportam para o cetim surrado das velhas sapatilhas, cuja trajetória, depois de milhares de pliês e piruetas, teria um destino certo: as latas de lixo. Nas mãos de Félix elas se transformam, são alçadas à condição de peças decorativas e já enfeitam academias e residências em várias partes do mundo.

Ao mesmo tempo, percorrendo um caminho inverso, velhas sapatilhas chegam, para serem pintadas, lhe assegurando um bom estoque de matéria prima.

Produzidas aos pares, a idéia é nunca vendê-las separadamente, mas o preço, o artista não sabe dizer. Ao contrário, gosta de presentear as pessoas que o visitam na condição de bailarino principal de uma das maiores companhias de ballet do mundo.

Pintadas em tempo recorde, não leva mais de dez minutos para compor um par, as sapatilhas se amontoam num canto da sala. Félix não se impressiona com o fascínio que elas exercem, principalmente sobre os apaixonados por ballet. Quando uma bailarina se depara com as sapatilhas pintadas, o encantamento é inevitável. “Elas dão muito valor a isso, mas eu dou mais valor às sapatilhas calçadas, ao sofrimento de seus próprios pés”.

Já suas telas, ele exibe com orgulho e até gostaria de viver da arte, embora as atividades de mestre de ballet e bailarino principal do BNC o impeçam de dedicar mais tempo aos pincéis.

Mas ele segue pintando num ritmo frenético, todos os dias, nas horas de folga e espera um dia se dedicar mais à pintura, fazer exposições fora de Cuba, enfim, divulgar seu trabalho.

Na impossibilidade de realizar exposições no exterior encontrou nas sapatilhas, uma forma de exportar sua arte. Por serem menores são fáceis de transportar e através dessas telas portáteis sua pintura acabou ganhando visibilidade.

As companhias de ballet que se apresentam em Cuba e conhecem o trabalho de Félix, imediatamente estabelecem com ele uma espécie de intercâmbio de sapatilhas. “Elas chegam velhas, sujas e eu as devolvo pintadas” diz, como se isso não passasse de uma brincadeira, cujas proporções ainda não consegue avaliar. “Tenho sapatilhas na França, Espanha, Itália, Inglaterra, Canadá, até no Brasil”.

DEDICAÇÃO PLENA

Condecorado duas vezes, por Fidel Castro, pelos bons serviços prestados à Cultura Nacional, Félix exibe com orgulho as medalhas, mas fala com frustração da impossibilidade de ter mais de uma profissão. É uma espécie de regime de dedicação plena, sendo ele um bailarino, pode ter a pintura como hobbie, mas deve dedicar-se integralmente ao ballet.

Quando perguntado sobre qual das duas artes escolheria ele não hesita ao responder: “Dançar é a minha vida”.

Aos onze anos de idade foi admitido na Escola Nacional de Ballet, para onde são mandadas todas as grandes promessas surgidas nas escolas espalhadas pelas 14 Províncias (Estados) de Cuba. Lá permaneceu até os 17 anos, quando foi admitido pelo BNC, cuja rigorosa seleção reúne os melhores bailarinos produzidos na Ilha.

De lá para cá já se passaram 38 anos, percorrendo os principais palcos do mundo e, segundo ele, “tive a honra de estar ao lado de Alicia Alonso, por quase 30 anos e de quem fui um dos últimos pares”.

Para dançar com uma das grandes divas do balé mundial e fundadora do BNC, somente o melhor da companhia, o que explica o sentimento de honra a que ele se refere.

Félix faz aulas de ballet diariamente para manter a forma, embora já não dance mais. A exemplo de sua mestra, no entanto, pretende dedicar-se a essa arte até o fim de seus dias e acredita que cada vez mais encontrará tempo também para os seus pincéis.

Curiosamente foi através da dança que ele descobriu a pintura e através das sapatilhas o caminho para divulgar sua arte.